Não tão próximo, mas não tão distante das trevas: uma cartografia sobre saúde mental
Resumo
O presente trabalho se debruça sobre o sofrimento psíquico grave, entendendo-o como um desafio que atravessa não apenas as práticas de cuidado, mas também as relações sociais, econômicas e afetivas do sujeito. Buscou-se compreender como o adoecimento se entrelaça aos modos de subjetivação, a partir da escuta de usuários de um centro de convivência em saúde mental no Distrito Federal. A investigação foi conduzida por uma perspectiva qualitativa, tendo a Cartografia Social como lente metodológica, fazendo uso de observação participante, diário de campo e entrevistas semiestruturadas. O olhar analítico voltou-se aos modos de subjetivação e às formas de resistência que os sujeitos constroem diante de um contexto social atravessado por práticas higienistas e excludentes. Os achados indicam que o sofrimento psíquico grave não pode ser reduzido a um quadro de sintomas, mas deve ser compreendido em sua espessura relacional, histórica e social. A subjetividade, nesse sentido, emerge na intersecção entre o adoecimento, as relações familiares, as redes de cuidado, as condições materiais de existência e os atravessamentos da sociedade. Observou-se que os vínculos familiares desempenham tanto funções de apoio e sustentação quanto podem se configurar como espaços de sofrimento. Narrativas de abandono, violência e silenciamento apareceram de modo recorrente. Aspectos socioeconômicos mostraram-se relevantes, atravessando fortemente os percursos de cuidado e a possibilidade de resistência. A pesquisa reforça que os dispositivos de saúde mental, em especial os centros de convivência, constituem territórios de reconstrução do laço social, nos quais os sujeitos podem experimentar outras formas de estar com o outro e consigo mesmos. Este trabalho destaca a relevância de práticas de cuidado que enxerguem o sujeito para além de sua condição de adoecimento, reconhecendo-o como agente ativo em sua própria trajetória.
Palavras-chave
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PDFDOI: https://doi.org/10.5102/pic.n0.0.10758
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